28/7/2017

Roseli Lopes, Agência Indusnet Fiesp

Desde que bancos do mundo inteiro se comprometeram a pautar suas operações financeiras com os olhos voltados para a proteção ambiental, aderindo, 25 anos atrás, a uma iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) nesse sentido, a variável ambiental passou a fazer parte dos modelos de avaliação de risco de crédito às empresas. O que faz com que, hoje, seja quase impossível uma companhia tomar um empréstimo bancário sem que nele esteja computado seu grau de comprometimento com a saúde do meio ambiente. No Brasil, a ação do Pnuma de quase três décadas atrás ganhou robustez em 2014, ano em que o Banco Central tornou obrigatória o inclusão, por parte dos bancos, da Política de Responsabilidade Socioambiental em toda decisão sobre financiamento a empresas.

A relevância do risco ambiental nas instituições financeiras levou o Conselho Superior do Meio Ambiente da Fiesp (Cosema) a trazer novamente o tema para debate, ressaltou Walter Lazzarini, presidente do conselho. Na terça-feira, 25/7, o economista Mário Sérgio Vasconcelos, diretor de Relações Institucionais da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), falou sobre o trabalho que a instituição vem fazendo para mitigar os riscos inerentes às mudanças climáticas apontados em 2016 durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. “Olhando para os compromissos e as contribuições que o Brasil levou para o acordo climático, a leitura que fazemos é a de que a sustentabilidade é mais do que nunca algo que precisamos perseguir e transformar em oportunidades para o país, falou Vasconcelos.

O economista da Febraban disse ainda que, tanto na questão do uso da terra quanto na questão de energia, o Brasil tem vantagens competitivas quase inigualáveis sobre outros países. Principalmente nas questões que dizem respeito ao agronegócio, à segurança alimentar e à produção de alimentos com alta tecnologia a custos competitivos, avalia Vasconcelos. Um exemplo, diz, é a geração de energias baratas. “Temos uma capacidade enorme de geração de energia que pode ajudar definitivamente todo o parque industrial brasileiro.”  Bem trabalhado, emenda o economista, tem tudo para se transformar em fator competitivo no mercado internacional.

“A sustentabilidade será efetiva a partir do momento em que estiver integrada e fizer parte do dia a dia dos negócios de todos nós”, fala Vasconcelos. Ele admite, no entanto, que ainda há muito desconhecimento nesse processo, e por isso, de alguma maneira, é preciso levar isso para dentro das casas e principalmente das empresas. Por isso, a Febraban trabalha antecipando tendências na área socioambiental que impactem o setor financeiro. Também procura identificar modelos de negócios que contribuam para o cumprimento das metas para o combate às mudanças climáticas assumidas pelo Brasil no âmbito da COP-21, a Convenção do Clima de Paris, realizada em 2015.

Atuação

Na Febraban, a governança do tema é trabalhada sob a regência de duas comissões: uma envolvendo diretamente os 29 bancos associados de forma a levar a discussão de propostas a todo o mercado financeiro e o mercado de capitais. A segunda comissão é intersetorial, da qual fazem parte associações como a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) e a Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), entre outras. “É importante que a discussão ocorra de forma compartilhada não apenas entre os bancos associados da Febraban, mas de forma integrada e sinérgica entre todo o sistema financeiro, respeitando a particularidade de cada mercado, para que possamos avançar na agenda brasileira de sustentabilidade”, diz Vasconcelos.

Ele conta que outra ação ligada ao tema é o Café com Sustentabilidade, evento aberto, anual, que nos últimos 10 anos já levou 52 temas para discussão abordados por 160 palestrantes que falaram a 2.500 participantes. O próximo, marcado para agosto, abordará o conjunto de recomendações finais sobre riscos climáticos do Financial Stability Board (FSB), divulgadas em junho deste ano.  A partir daí o objetivo é o de avaliar e discutir os conceitos e as recomendações do relatório final; identificar os negócios financeiros, as práticas existentes relacionadas à gestão do risco climático; e, por fim, comparar práticas existentes com as recomendações, identificar lacunas e, a partir destas, enxergar as oportunidades.

Todo ano, a Febraban também mede quanto dos financiamentos bancários estão sendo canalizados para setores da chamada economia verde segundo a classificação das Nações Unidas. Em 2015 (último dado disponível da Febraban), os 14 bancos que, juntos, respondem por 87% das operações de crédito bancário, emprestaram R$ 1.893 bilhão. Desse total, R$ 617,6 bilhões (32,6%) financiaram projetos dos setores tidos com maior potencial de risco e por isso sujeitos à diligência socioambiental do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Outros R$ 316,9 bilhões (16,7%) foram destinados a setores da economia verde, aqueles voltados ao desenvolvimento de produtos ou processos sustentáveis. Os números referentes a 2016 serão conhecidos em agosto.

Até hoje, o Brasil emitiu US$ 3 bilhões em títulos verdes usados no financiamento de projetos de eficiência energética, renováveis, manejo sustentável de florestas e outros que contribuem para o alcance das metas de longo prazo de sustentabilidade de companhias. Mas o volume ainda é considerado baixo diante das demandas, na avaliação de Vasconcelos, pois o setor, diz ele, demanda mais. “Temos muito potencial para montar projetos atraentes, financeiramente saudáveis e com retorno, além de ambientalmente corretos”, fala o executivo da Federação dos Bancos.

Setor agropecuário

Em 2017, a Febraban desenvolveu um projeto de apoio à implantação do Cadastro Ambiental Rural (CAR), unindo-se, assim, a associações do setor agropecuário, como Associação Brasileira do Agronegócio (Abag),  União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA) e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), entre outros. A implementação do CAR é uma peça de sustentação do Código Florestal. “Pretendemos que o CAR seja mais uma fonte de avaliação de risco para a tomada de crédito. A partir de janeiro de 2018, o produtor rural que não tiver o CAR não poderá tomar qualquer tipo de crédito do setor financeiro”, conta Vasconcelos.

“Vejo o CAR como uma das soluções para os clientes, e por isso foi elencado como um dos principais projetos da Febraban para 2017. Temos 4 milhões de propriedades que, ao fazerem seu cadastro, irão se deparar com passivos ambientais e aí precisarão atender as exigências para ficar de acordo com a legislação”, observa o economista da Febraban. Até 31 de maio último, 4,2 milhões de imóveis rurais estavam cadastrados dentro do programa do CAR. Dos 397,8 milhões de hectares de área cadastrável, 410,6 milhões de hectares já foram cadastrados, segundo o Serviço Florestal Brasileiro.



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