9/6/2017

Tássia Almeida e Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

A Semana do Meio Ambiente da Fiesp e do Ciesp chegou ao fim na tarde desta quinta-feira (8/6), com uma discussão sobre as indústrias e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, os ODS. O tema foi apresentado com o intuito de compartilhar perspectivas do setor industrial brasileiro em relação aos objetivos, além de promover o envolvimento das empresas brasileiras e apontar os possíveis caminhos para o cumprimento da Agenda 2030, fundamental para a prosperidade das pessoas e do planeta.

Durante a abertura do evento, Nelson Pereira dos Reis, vice-presidente da Fiesp e diretor titular de seu Departamento de Meio Ambiente, relembrou os principais assuntos debatidos ao longo da Semana que teve início na segunda-feira (5 de junho), e destacou que foi uma programação com bastante conteúdo e recorde de público.

“Chegamos ao quarto dia de evento, e em todos os dias tivemos um público bastante atuante, presente e ativo. Isso mostra a importância dos temas que a gente se propôs discutir”, reforçou a diretora titular do Comitê de Responsabilidade Social da Fiesp (Cores), Grácia Fragalá. Ainda segundo ela, o seminário sobre os ODS é um convite para participar de um dos principais debates do século. “Acho que a gente se coloca diante de uma situação extremante desafiadora. Quando a gente conhece os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável tem em vista 169 metas”, pontuou. “Olhando para cada um destes objetivos, observamos que esta agenda inclui os grandes desafios que a sociedade global enfrenta”, completou Grácia. A diretora do Cores defende que as empresas, principalmente as que adotam comportamentos socialmente responsáveis, são importantes agentes de transformação do desenvolvimento econômico, social e ambiental. “Elas podem até ser consideradas o principal motor para mudança que desejamos no mundo”, concluiu.

“Mais do que conhecer as metas e os objetivos, é importante que coloquemos tudo isso em prática. O objetivo dessa semana e deste evento é que aqueles que ainda não conhecem tenham um impulso, uma energia para colocar a ‘mão na massa’”, disse o diretor de Responsabilidade Social do Ciesp, Vitor Seravalli. Ele ainda comentou que “muitas instituições e empresas já mostram evidências da competência da sustentabilidade em seus negócios”. Estes exemplos e práticas empresariais foram apresentados nos painéis como uma oportunidade de mostrar para a sociedade os caminhos que estão sendo construídos. Vitor acredita que a indústria será cada vez mais inclusiva, resiliente e atenta à inovação para a sustentabilidade.

O vice-presidente do Ciesp e presidente da ABIT/Sinditêxtil-SP, Rafael Cervone, comentou sobre a evolução que o setor industrial tem vivido nos últimos anos. “Quando comecei na indústria nos anos 80 vi uma realidade, uma consciência e um comprometimento diferente do que é hoje. A gente comprava máquina para ganhar eficiência produtiva, hoje a gente avalia o consumo de energia, calor, como a gente pode aproveitar, reutilizar. Hoje a cabeça é outra, mas é claro que temos muita coisa para evoluir”, disse. Cervone lembrou que 10 anos atrás, para produzir um quilo de tecido denim para calça jeans era necessário usar 100 litros de água. “Hoje usamos 7 litros e fazemos o acabamento a laser”, afirmou.

Ao fim da abertura, André Oliveira, presidente da Rede Brasil do Pacto Global e CCO da Basf América do Sul, parabenizou e agradeceu à Fiesp e ao Ciesp pela “iniciativa de promover debates de altíssimo nível”.

O protagonismo brasileiro

No primeiro painel do dia, “O protagonismo brasileiro”, Barbara Dunin, assessora da Rede Brasileira do Pacto Global, apresentou como o Pacto Global tem trabalhado a agenda das ODS e abordou o papel das empresas nas ODM x ODS. Lançado em 2000 por Kofi Annan, o Pacto Global tem mais de 12.000 signatários, sendo 9.000 empresas, e é considerado a maior iniciativa voluntária de cidadania corporativa do mundo.

Na sequência, Cristiana Pereira, diretora Comercial e de Desenvolvimento de Empresas da B3, falou sobre o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), um índice que mede o retorno médio de uma carteira teórica de ações de empresas de capital aberto e listadas na B3 com as melhores práticas em sustentabilidade.

O segundo painel explorou “O papel e o compromisso das entidades do setor produtivo”, com participação de Haruo Ishikawa, vice-presidente de Relações Capital – Trabalho e Responsabilidade Social do SindusCon – SP e Luiza Lorenzetti, que atua na área de Sustentabilidade e Inovação da Abit/Sinditêxtil.

Por fim, o terceiro painel apresentou “O papel e o compromisso das empresas brasileiras”, com apresentações de Emiliano Graziano, gerente de Sustentabilidade para a América Latina – BAS, Lena Peron, da Feito Brasil Cosméticos, e Raquel da Cruz, da Feitiços Aromáticos.

Gestão empresarial, sustentabilidade e seus desafios

“Não se pode mudar o que não se conhece e é fundamental compartilhar esse conhecimento com as micro e pequenas empresas. Os aspectos globais têm impacto nos negócios locais e é preciso traduzir esses conceitos”, disse Marlúcio de Souza Borges, diretor titular adjunto do Departamento de Meio Ambiente da Fiesp, ao abrir os trabalhos da mesa-redonda sobre gestão empresarial, sustentabilidade e seus desafios.

As empresas enfrentam, em termos de meio ambiente, excesso de burocracia, que não facilita o desenvolvimento sustentável, pois as normas estão voltadas para a fiscalização e a penalização, repercutiu Walter Lazzarini Filho, presidente do Conselho Superior de Meio Ambiente da Fiesp (Cosema). Ao citar o Fórum Econômico Mundial de Competitividade da Indústria, Lazzarini lembrou o alto peso da carga tributária, da ordem de 36% do PIB nacional, o que leva as empresas a dispender 2.600 horas por ano somente para o pagamento de impostos. As empresas têm interesse em cuidar da água, insumo importante, e o fato de 66% das empresas brasileiras usarem energias renováveis (fonte: Anuário Análise de Gestão Ambiental, 2013) dão a dimensão do compromisso assumido pela indústria, pontuou.

A sustentabilidade guarda relação direta com a própria sustentabilidade industrial, segundo Arlindo Philippi Jr. (Instituto de Estudos Avançados & Faculdade de Saúde Pública-USP). Ele criticou a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que rompeu com o acordo climático global, mas tal fato não encontrou ressonância nas empresas lá instaladas, que se comprometeram a dar continuidade ao pacto. Os EUA são o segundo maior poluidor do planeta, perdendo apenas para a China – que se mantém no Acordo de Paris.

Ainda sobre o acordo climático, Aron Belink (FGV EAESP), defendeu a precificação do carbono nos debates em torno das opções estratégicas para o controle da mudança climática. “Será inevitável e é preciso nos prepararmos para não sermos pegos de surpresa”, disse. Segundo enfatizou, “as empresas precisam ter consciência da sua responsabilidade ambiental, e estamos construindo instrumentos para atender essa agenda. A Agenda 2030 não se resume às ODS, e seus 17 pilares devem ser compreendidos como integrados e indivisíveis e não interpretados de forma separada pelas empresas”.

Gabriel Petrus (diretor-executivo do ICC Brasil) lembrou que guias e documentos direcionam diversas agendas para nortear as empresas e defendeu as políticas públicas para que se estabeleça uma economia verde, pois o setor corporativo abraçou a causa.

Na opinião de Sônia Karin Chapman (diretora da Chapman Consulting), é preciso reaprender a fazer negócios e consumir conscientemente. Ela citou os setores que concentram os maiores desafios em termos ambientais: papel e celulose, plásticos, cosméticos e agrobusiness. “É preciso promover o olhar sistêmico sobre a cadeia de valor e o ciclo de vida dos produtos” e lembrou que só se consegue gerenciar o que é possível mensurar.

A Ambev trouxe seu exemplo: reaproveita 99% de seus resíduos, gerando ganhos em termos econômicos, enfatizou Beatriz Oliveira, gerente corporativa, que explicou a preocupação com o redesenho de embalagens e a redução do pós-consumo, a preocupação com as energias renováveis e alterações climáticas, pois a água é 90% de sua matéria-prima. E faz “todo o sentido preservá-la”. Por isso, dá-se atenção também às bacias hidrográficas, e as ações desencadeadas desde 2003 pela empresa já reduziram em mais de 40% o consumo de água em seu processo.

Marcelo Drügg Barreto Vianna (docente MBA de Gerenciamento de Facilites da Poli-USP), tratou da gestão da sustentabilidade e gestão do risco com maior ênfase nos processos de conscientização, capacitação e educação. “A governança é aderente ao princípio da precaução”, disse, visão coincidente com a da procuradora Sandra Akemi Shimada Kishi (da procuradoria regional da República da 3ª região).

Kishi está à frente do projeto Qualidade e conexão água do Ministério Público Federal. “A crise hídrica não acabou. A água permeia todas as ODS”, disse. Ao tratar da hipervulnerabilidade atual, afirmou que houve um retrocesso e há uma relação intrínseca entre Lei Anti-Corrupção e gestão. É preciso facilitar o processo de informação, incrementar a transparência que é, inclusive, uma previsão legal, e o regime de integridade é exigência da lei.

Criticou a potabilidade da água e destacou o direito humano ao seu acesso. Também enfatizou a necessidade de novos Planos de Segurança da Água (PSA), como indicadores de saúde pública, mas não os planos das concessionárias, e sim novos PSAs dentro de cada bacia hidrográfica, em seus limites locais, estaduais e nacional.



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