21/3/2017

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

Alexandre Gross, coordenador de projetos do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV (GVCes), participou do painel Adaptação às mudanças do clima e a segurança hídrica, durante o seminário Mudança do clima e segurança hídrica: Reflexos e impactos para sociedade, promovido nesta terça-feira (21 de março) pela Fiesp. Gross apresentou uma análise de custo-benefício de medidas de adaptação às mudanças climáticas no Brasil.

A análise mostrada foi de uma bacia hidrográfica, a de Piancó-Piranhas-Açu, no Nordeste. A estimativa para 2050 (não são dados reais, ressaltou Gross) é de perda anual de R$ 9 bilhões, mas somente R$ 2,8 bilhões são enxergados sem levar em conta os impactos climáticos. E 90% da perda recai sobre a indústria.

No estudo, foram usados 42 cenários independentes, com a montagem de 3 cenários climáticos consensuais. O déficit acumulado, com base no passado, é de 120 m3 por segundo. Com o cenário árido, há mais que o dobro de déficit hídrico (133% a mais). O risco econômico, tradução do déficit hídrico, considerando o clima, quase dobra.

Agora é a fase de avaliação de medidas para responder aos riscos. Podem ser físicas, como construção de reservatórios, informacionais, comportamentais. No caso de indústrias, usou como exemplo, ser necessário considerar atividades com menor uso de água. O tema, na verdade, é risco climático e como lidar com ele, explicou. Para o setor hídrico, sempre houve risco, mas ele ficou pior.

Jerson Kelman, presidente da Sabesp, explicou medidas tomadas para reforçar a segurança hídrica no Estado de São Paulo, depois da seca de 2013/14 – que, afirmou, tinha probabilidade de 0,004%, ou seja, de acontecer 1 vez em 250 anos. A pergunta, segundo Kelman, é se a estrutura deve ser preparada para enfrentar a repetição do fenômeno. No Cantareira, a vazão média foi metade da pior situação anterior (10 m³ por segundo, contra 20m³ em 1953 e 40m³ em média normalmente). Decidiu-se pela interligação de sistemas e de mananciais, o que trouxe mais flexibilidade. E foram projetadas obras estruturantes. Quando tudo ficar pronto, disse, parte da estrutura ficará em stand-by, para ser usada quando necessário. São investimentos essenciais para segurança hídrica, afirmou.

Alexei Vivan, diretor-presidente da ABCE, Associação Brasileira de Companhias de Energia Elétrica, defendeu postergar e evitar ao máximo os impactos da mudança climática. Há a necessidade de se preparar para algo que não se sabe exatamente quando e como vai ocorrer, disse.

Todo planejamento do SEB, explicou Vivan, é feito com base em séries históricas de cheias, secas, incidência de chuvas e de clima, com as séries estatísticas sendo usadas para planejar o futuro, mas há grande chance de que elas não se repitam devido à mudança climática, afetando a capacidade de pensar no futuro.

A produção brasileira de energia, lembrou, é vulnerável à alteração dos regimes hidrológicos provocada pela mudança climática. A hidroeletricidade responde por 61% da matriz energética do país. Uma primeira recomendação é ter grandes reservatórios para acumulação de água para geração de energia – o contrário da tendência atual, de reservatórios a fio d’água.

É importante lembrar, disse, que a indústria usa energia em seu processo produtivo. Deve pensar em uso de fontes de energia alternativas, novas fontes ou relocação de plantas industriais.

Frisou a importância das diretrizes de governança dos sistemas hídricos – por exemplo, para aumentar a capacidade de resposta das instituições diante de cenários futuros incertos e em mudança. Também afirmou que é importante manter a população informada.

Mario Leopoldo de Pino Neto, gerente de Sustentabilidade da Braskem, falou sobre a evolução do aprendizado na empresa sobre água e clima, preocupações desde sua fundação. O cenário do futuro, disse, é de acirramento da disputa por recursos hídricos entre residências, indústria e irrigação.

Com auxílio do GVCes, a Braskem criou plano de adaptação às mudanças climáticas e está implantando as iniciativas para os seis cenários que afetam a empresa.

Explicou o projeto Aquapolo, parceria da Odebrecht Ambiental com a Sabesp, que fornece, a partir de água de reúso tratada, 97% da demanda da Braskem no ABC, que fica com 60% de tudo que é produzido. E a qualidade é melhor do que a da água anteriormente captada de reservatórios ou fontes subterrâneas. Isso, mais a redução de afluentes e outras medidas, não é o bastante, disse Pino, porque fornecedores em área de risco hídrico e clientes podem afetar a empresa. Era preciso ir além, pensando no nível de bacia hidrográfica. Para reverter a previsão de cenário futuro é preciso integrar setor privado, governo e sociedade.

Pino mostrou ameaças e oportunidades, com cenários como a diminuição das perdas em São Paulo para os 15% considerados viáveis e a criação de mais aquapolos. Se nada for feito, o futuro (20 anos) é de água em falta, com o consumo ultrapassando a produção.

Painel sobre segurança hídrica durante seminário promovido pela Fiesp. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Painel sobre segurança hídrica durante seminário promovido pela Fiesp. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp



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