12/8/2019

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

Um dos objetivos do seminário O Ar que respiramos, realizado na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), nos dias 7 e 8 de agosto, era debater os impactos na saúde e estabelecer ações que levem à diminuição das mortes decorrentes da poluição atmosférica, bem como dos altos custos médicos e hospitalares, pontuou Eduardo San Martin, presidente do Conselho Superior de Meio Ambiente (Cosema) da Fiesp, na abertura de um dos painéis que tratou especificamente de saúde pública.

Há um tripé nocivo em termos de saúde ambiental – poluição atmosférica, qualidade da água para o consumo humano e a exposição a agentes químicos -, conforme alertou Thais Araújo Cavendish, coordenadora geral de Vigilância em Saúde Ambiental do Ministério da Saúde. Ao apresentar estudo de impactos na saúde, elencou como propulsores a mudança do clima, a ocupação desordenada, as atividades industriais e agrícolas, além do saneamento. Portanto, “para resolver a questão, é preciso dialogar com vários atores e promover a integração com outros setores, tais como universidades, ONGs e comunidades, laboratórios e Procons”, apontou, ao lembrar que a poluição do ar é um assassino silencioso, além de expressivo risco ambiental.

Todos os anos, cerca de 7 milhões de mortes, no mundo, estão relacionadas à exposição da poluição do ar no ambiente e no próprio domicílio. Com a redução dos níveis de poluição, também se reduzem os números de acidente vascular, doença cardíaca e câncer de pulmão mais as doenças respiratórias crônicas e agudas, incluindo-se a asma. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), são 300 mil mortes na região das Américas”, explicou Cavendish.

Na composição dessas mortes prematuras, 21% ocorrem por pneumonia, 20% por doenças cerebrovasculares, 34% por doenças cardíacas, 19% por doença pulmonar obstrutiva crônica, e 7% por câncer pulmonar. Em um recorte, a poluição do ar no domicílio, responde por 3,8 milhões de óbitos, especialmente pelo uso de querosene e combustíveis sólidos, como a madeira, fogões, aquecedores e lâmpadas poluidoras. “Crianças e mulheres expostas, em casa, aos combustíveis fósseis são as populações mais vulneráveis”, alertou a especialista.

No Brasil, estima-se um total de 26.241 mortes por doenças relacionadas à poluição do ar (dados de 2012) e os mais afetados são as crianças menores de 5 anos e os adultos acima dos 59 anos. De acordo com os números apresentados, esses óbitos superam os verificados quanto à malária e ao HIV.

De acordo com suas informações, a poluição atmosférica está inserida na agenda de vigilância em saúde ambiental com foco em fontes fixas, fontes móveis, queima de biomassa e atenção à frota veicular que cresce exponencialmente. São mais de 50 brasileiros morrendo a cada 100 mil habitantes. Em 2016, foram 586 anos de vidas perdidas com mortes prematuras e os gastos do Sistema Único de Saúde (SUS) com internações por doenças do aparelho respiratório só se elevam.

A poluição do ar está sendo considerado o mais importante fator de risco ambiental para a saúde e merece atenção da OMS, do regional Office para a Europa, que desenvolveu uma metodologia de monitoramento, a AirQ+. “O Brasil está atrasado em sua metodologia”, disse Cavendish.

O tema necessita de políticas públicas e transversais. Entre as soluções apontadas pela OMS, investimentos na geração de energia eficiente; melhoria do manejo de resíduos domésticos, industriais e municipais; redução da incineração de resíduos agrícolas e dos incêndios florestais; tornar as cidades mais verdes e com edifícios de eficiência energética; proporcionar acesso a tecnologias e combustíveis limpos para cozinhar, aquecer e iluminar; além da construção de sistemas de transporte público acessíveis e seguros e vias para pedestres e ciclistas. Ou seja, há implicações em termos de planejamento urbano, integração de modais e valorização de espaços urbanos mais verdes, na conclusão da apresentação de Thais Araújo Cavendish, coordenadora geral de Vigilância em Saúde Ambiental do Ministério da Saúde.

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Mudança do clima e impactos na saúde mundial

A mudança climática é a maior ameaça à saúde no século XXI. A frase de Vital Ribeiro Filho, técnico da Divisão do Meio Ambiente–Centro de Vigilância Sanitária (CVS) reflete a preocupação com o ressurgimento de doenças já erradicadas e de mais casos de câncer em função das alterações do clima no globo terrestre. “Bebemos cada vez mais água com contaminantes. Há impactos na nutrição e produção de alimentos, em doenças transmitidas por vetores, além da alteração de ecossistemas e perda de biodiversidade”, afirmou, ao reforçar que esses fatores promovem pobreza, guerras e migrações populacionais.

Na avaliação de Ribeiro Filho, a poluição do ar está gerando uma crise global de saúde: uma em cada nove mortes, no mundo, têm em sua gênese a poluição do ar; ¼ das mortes se dá por ataque do coração e 1/3 das mortes por derrame, câncer de pulmão e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). De acordo com o expositor, 91% das pessoas estão expostas a níveis de poluição do ar que excede os padrões estabelecidos pela OMS.

Ao tratar do tema de modo mais aprofundado, as temperaturas mais elevadas aumentam a formação de ozônio e a poluição atmosférica, acrescentando mais CO2, carbono negro, metano e outros poluentes climáticos, reforçando o ciclo de mudança do clima.

Nesse sentido, mundialmente, 25% das maiores fontes de poluição atmosférica global (PM 2,5) são de emissões do transporte, 15% vêm de produção de energia e de atividades industriais, 18% têm origem na poeira e no sal marinho em suspensão e 20% vêm da queima de combustível em residências.

Ribeiro Filho apresentou o mapa das 30 estações de monitoramento da Cetesb, na Região Metropolitana de São Paulo. Pelo Inventário de Emissões Atmosféricas do Transporte Rodoviário de Passageiros no Município de São Paulo, mais de 70% das emissões de gases estufa se devem ao transporte de 1/3 dos passageiros, “mas as pessoas não estão expostas do mesmo jeito à poluição, pois algumas se localizam em áreas de poluição extrema, como as marginais, por onde muitos transitam diariamente”, afirmou.

A poluição atmosférica é uma realidade em quase todas as grandes cidades do mundo, da mesma forma que nas regiões metropolitanas de São Paulo e outros aglomerados urbanos do território nacional.

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