25/11/2015

Solange Sólon Borges

Foram necessários 750 anos para dobrar a população planetária e hoje esse fenômeno ocorre em 45 anos. Com esse alerta, Guilherme Brammer, CEO da WiseWaste, participou do último encontro do Conselho de Meio Ambiente (Cosema) da Fiesp, dia 24, debatendo a importância da economia circular aplicada à Política Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS).

“Hoje, 51% da população vive nas áreas urbanas, em 2025, esse número se elevará a 70%”, alertou, tratando do adensamento populacional que traz a reboque consumo excessivo de produtos industrializados versus expressiva produção de resíduos. Brammer apresentou contabilidade curiosa e ao mesmo tempo preocupante: em 75 anos de existência um ser humano consome 13 mil ovos, 5 mil maçãs, 4 cabeças de gado e 1.200 frangos. Seu consumo de fraldas chega ao patamar de 3.800 unidades, toma 7.163 banhos, usa 272 desodorantes, consome 533 livros, roda 728 mil km de carro, passa 8 anos em frente à TV e produz 40 toneladas de lixo.

Em sua avaliação, a economia linear gera resíduos e ilhas de lixo, onde os pássaros têm se alimentado e mais de 30 mil pessoas vivem delas. E este é um ponto de atenção. O Brasil é grande importador de lixo de países que não têm mais espaço para seu gerenciamento e o que entra nem sempre é material para ser reciclado: “não é incomum o Brasil, a exemplo de países em desenvolvimento, receber containers com lixo eletrônico ou tóxico, como o hospitalar”, advertiu.

Brammer revelou que se contabilizam R$ 8 bilhões perdidos em aterros sanitários, valor que se eleva a três trilhões de euros mundialmente, ou seja, joga-se dinheiro no lixo, um desperdício no sentido literal.

A diferença entre a economia linear e a circular é que, na primeira, a natureza leva milhões de anos para gerar recursos naturais e o homem transforma-os em matéria-prima e em produtos que são embalados, vendidos, consumidos e descartados, cujo design foi feito para uma vida única. Na economia circular, o que é considerado rejeito é alimento para o próximo sistema, com uma logística de reaproveitamento, inclusive da embalagem para que ela não perca valor.

A economia circular auxilia a pensar em um novo processo produtivo. É no momento de crise que a economia circular ganha força, ao se aproveitar mais os processos e despertar a criatividade e a inovação, segundo Brammer, ao pontuar a atual crise atravessada pelo Brasil, inclusive no setor produtivo. Para ele, a indústria vive da matéria-prima e sem a reciclagem não haverá material no mercado.

COP21: Mudança do clima

Quanto à COP21, o CEO Guilherme Brammer concorda com a importância do debate de temas como transferência tecnológica, aporte de recursos e o ajuste da legislação que trará inevitavelmente impacto para o setor produtivo. Para ele, discutir em escala global ajuda em escala local, demandas como evitar a emissão de gases de efeito estuda (GEE), exigirá dos países maior aproveitamento de recursos. “Isto melhora a execução de tarefas que a empresa tradicional costumava fazer e que passa a ser mais exigida pela sociedade. Há metas a serem atingidas”, refletiu, lembrando que esse processo exigirá mais do Executivo.

Em sua avaliação, o mundo digital permite a troca de informações quanto a questões tecnológicas e à inovação: “o Brasil precisa evoluir no rumo das ideias inovadoras, das start ups que estão pensando em soluções para o clima. Se o acordo trouxer mais acesso a fundos que fomentem pesquisa e desenvolvimento para o meio ambiente isto ajuda. É difícil para uma start up e para um empresário alcançar uma solução sem recursos. Isso demora mais e não temos mais tempo, precisamos de ações mais rápidas. Há linhas disponibilizadas pelo governo de difícil acesso, mas se isto for facilitado pela COP irá fomentar mais negócios e soluções e o Brasil será mais sustentável”, concluiu.

Ao considerar o Brasil como um grande player, fornecedor de matéria-prima, afirmou estar um pouco mais otimista quanto a um futuro acordo em função de tudo o que está ocorrendo nesse momento em torno da COP21 e da própria França com os recentes atentados.

Cases de sucesso

Como exemplos, Brammer citou o Pró-Lata, projeto desenvolvido com a Associação Brasileira de Fabricantes de Aço (Afeaço) e Fabricantes de Tinta (Abrafati), mais a Gerdau, e com o apoio tecnológico de uma plataforma on-line. Com o objetivo de adquirir sucata de aço de cooperativas de catadores para a siderurgia, os benefícios apontados são duas vezes mais renda para os envolvidos na separação e o reaproveitamento de mais de 500 mil quilos de material. Essa ação se soma à capacitação de mais de 50 cooperativas em todo o país, que deverá se elevar para mais de 100 em 2016.

Outro exemplo vem da Natura que, por meio de pesquisa e desenvolvimento, solucionou a criação de uma embalagem de três camadas incompatíveis – nylon, poliéster e polietileno -, transformada na marca Sou, lançada em 2013. Tratou-se de um projeto de co-criação.

Mais uma solução criativa foi alcançada pela Tang com projeto social voltado às crianças, cujo desafio era transformar embalagens de refresco em pó, cujas estruturas são complexas, em instrumentos musicais. Com foco em cem escolas públicas do país, sem salas e aulas de música, o projeto contou com a ajuda acadêmica do maestro João Carlos Martins (da Bachiana Filarmônica SESI-SP). O maestro escreveu cursos de música para crianças 2 a 12 de anos e o professor pode fazer o download da plataforma.

A WiseWaste desenvolveu tecnicamente a resina presente nesse tipo de embalagem, o que resultou em 12 tipos de instrumentos musicais, tais como tamborins, surdos, caixas e flautas doces, impactando 100 mil crianças. O saldo foi de 15 mil instrumentos, hoje atrelados à tradicional marca Contemporânea e que devem começar a ser exportados. “O propósito não era fazer um brinquedo, mas sim um produto que retornasse à sociedade com valor agregado”, disse o CEO da empresa.

Para ele, há a inversão do modelo de inovação, o desenvolvimento tem como base o design thinking. “Não temos a solução correta, o importante é encontrar oportunidades. É importante repensar a forma de se fazer um produto e repensar o design, inclusive, para que a embalagem não perca valor depois. Fazer menos se tornar mais”, concluiu.

Questionando pelos participantes sobre a extensão de vida de um produto, Brammer lembrou que é possível transformar o produto em serviço, como ocorre hoje com o aluguel de filtros de água, ganhando-se na receita via assinatura, caso da Brastemp. Outro exemplo é a BMW que passou a alugar carros e não somente a vendê-los. Nos Estados Unidos, há a Interface, com serviço de aluguel de carpete; o novo é feito com 99% do antigo. Seu faturamento alcança a casa dos US$ 2 bilhões.

SP 24 novembro 2015. 130ª Reunião COSEMA. Palestra: Resíduos Sólidos, por Guilherme Brammer. foto: Helcio Nagamine

Guilherme Brammer. Foto: Helcio Nagamine

Adote um cientista

Outro programa em andamento é o programa adote um cientista, em parceria com a Universidade Mackenzie. “Há muito valor dentro das universidades para se aplicar a um projeto real que tem finalidade para a sociedade”, enfatizou o expositor. Dessa parceria, uma das soluções que caminha para uma patente diz respeito à reciclagem de fralda descartável suja, com utilização de raio gama para sua esterilização e uma reciclagem mecânica pós-uso a fim de reaproveitar o polímero existente. Ao lembrar que é possível pensar a propriedade intelectual por outro viés, Guilherme Brammer frisou a importância da patente compartilhada com a qual todos saem ganhando, aluno, professor, a universidade e a empresa envolvida.

O foco da WiseWaste é o desenvolvimento de produtos, que utiliza resíduos como matéria-prima, com apoio da pesquisa para reaproveitamento de materiais que ainda não tem o seu processo de reciclagem conhecidos.



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